Para a maioria dos filmes o tempo é um processo infalível de maldição. Já para poucos outros o passar dos anos funciona como progresso no sentido da graça. Um exemplo são as variações nas muito freqüentes listas de melhores de todos os tempos.

Desde que a mania foi inventada nos anos 50 pela publicação britânica “Sight & Sound”, a presença de títulos com pouca idade sempre se manteve rarefeita. Na última seleção, publicada em 2002, o único “jovem” (quero dizer, título com menos de 40 anos) a obter um lugar entre os dez primeiros foi a dobradinha “O Poderoso Chefão” 1 e 2.

Era simples conferir o valor do trabalho de Coppola nesses dois filmes (finalizados como trilogia pelo injustamente considerado “menor” “O Poderoso Chefão 3”). Uma coleção especial, lançada em 2004, reunira os três filmes numa caixa, completada por um quarto DVD bem nutrido de extras. E encontrava-se com facilidade em locadoras com bom acervo.

Mas para quem viu ou adquiriu esta versão, vale um aviso: pelo menos os dois primeiros filmes da série acabam de deixar de ser aqueles que integravam o pacote. Explica-se: com o sucesso alcançado, os negativos dos filmes foram rodados à exaustão.

Resultado: o filme que circulava, desde as versões exibidas na TV nos anos 70, passando pelas obsoletas cópias em VHS até as relativamente recentes edições em DVD, não passa de pálida imitação ou completa adulteração do original que estreou nos cinemas em 1972.

Não é só para efeito de marketing que a caixa de DVDs lançada na semana passada vem acompanhada do subtítulo “The Coppola Restoration”. O trabalho de restauração, executado por técnicos da Paramount, trouxe à tona outro filme.

Com a consultoria rigorosa de Gordon Willis, fotógrafo da trilogia, os escuros e as luzes que se intercalam e se confrontam ao longo dos três longas recuperaram sua intensidade.

Willis inovou o modo de fotografar da época ao adotar um procedimento singular para alcançar os tons escuros que caracterizam a imagem de “O Poderoso Chefão”. Em amplas seções de cenas certas, a baixíssima luminosidade impedia que o negativo fosse exposto, alcançando um grau de tons escuros que não existia no cinema.

Em contraposição, Willis concebeu uma pátina dourada nas seções com incidência de luz focalizada, sobretudo nos rostos, obtendo extraordinários efeitos dramáticos. Já em certas cenas em espaços abertos superiluminados, como na seqüência do casamento na abertura do primeiro título, arrisca-se nos limites da saturação, criando uma variação de tons e luminosidades que reiteram a saga sentimental dos Corleone.

Com o excesso de copiagem, os tons escuros perderam nuances enquanto os dourados e rosados se tornaram amontoados de laranjas indistintos. Pior ainda foi o que aconteceu com a fotografia em cenas com luz difusa, que ganharam aparência de esfumaçadas, totalmente ausentes da concepção original.

A mudança mais impactante pode ser verificada na cena chave em que o personagem de Al Pacino atira no capitão de polícia e no mafioso, selando seu destino no mundo do crime. Com a restauração das cores e luzes, vê-se a atuação de Pacino toda concentrada nos movimentos de músculos da face, antes apagada pelo obscurecimento da imagem.

O documentário “Emulsional Rescue”, que integra o pacote dos extras da versão restaurada, explica estes e outros detalhes técnicos do processo e compara as alterações sofridas pela película em 25 anos.

Depois de assisti-lo, basta apertar o “play” do DVD de “O Poderoso Chefão” 1 e 2 para logo descobrir por que o tempo faz bem para alguns poucos e lança tantos outros na fogueira do esquecimento.